O retorno de Lucas Paquetá no Flamengo foi projetado para ser o capítulo final de uma história de redenção, mas o vice-campeonato da Recopa Sul-Americana diante do Lanús transformou o sonho em um roteiro de suspense. A derrota por 3 a 2 em pleno Maracanã não apenas tirou o segundo título da temporada da prateleira rubro-negra — após o revés na Supercopa para o Corinthians — como também reativou gatilhos psicológicos em um jogador que deveria ser o pilar técnico da equipe. O revés escancara uma crise técnica e emocional que desafia a gestão de Filipe Luís e coloca sob lupa o investimento recorde feito pelo clube carioca.
Contexto detalhado da temporada rubro-negra
O início de 2026 tem sido atípico para o torcedor do Flamengo, acostumado com a hegemonia continental estabelecida nos últimos anos. A diretoria apostou alto na janela de transferências, trazendo Lucas Paquetá por valores que superam os R$ 260 milhões, com o objetivo de elevar o patamar competitivo para o Mundial de Clubes e o Brasileirão. No entanto, o que se vê em campo é um time que ainda tenta digerir a transição de ideias entre a temporada vitoriosa de 2025 e o novo modelo implementado por Filipe Luís, que prioriza uma posse de bola agressiva e marcação em linha alta.
A perda da Supercopa do Brasil para o Corinthians, em Brasília, já havia acendido um sinal amarelo. Naquela ocasião, a falta de ritmo de competição e a desatenção defensiva foram os diagnósticos principais. Contudo, a queda na Recopa diante de um adversário argentino, dentro do Maracanã, elevou o tom das críticas. O Flamengo demonstra ser uma equipe com alto volume de jogo, mas com uma fragilidade emocional latente quando é golpeado, algo que ficou nítido na incapacidade de reagir ao empate do Lanús na última quinta-feira.
O cenário atual é de pressão extrema. O Campeonato Carioca, antes visto como um laboratório, tornou-se a única boia de salvação para acalmar os ânimos antes do início do Campeonato Brasileiro. A estrutura política do clube, sempre efervescente em anos de resultados oscilantes, já começa a questionar o planejamento que priorizou um único grande nome em vez de reforçar carências pontuais no sistema defensivo, especialmente nas laterais e na proteção da área.
Fator recente que mudou o cenário
O elemento catalisador desta instabilidade é o “dejà vu” vivido por Paquetá. Ao pisar no gramado do Maracanã para uma final continental, o meia carregava o peso de 2017, quando ainda promessa, viu o Independiente levantar a taça da Sul-Americana no mesmo local. O fato de o trauma ter se repetido nove anos depois, agora com o status de estrela mundial, criou uma atmosfera de desconfiança interna sobre a capacidade do elenco de suportar jogos de “vida ou morte” nesta nova configuração.
Além disso, a decisão de Filipe Luís de manter Paquetá no banco de reservas no início do jogo contra o Lanús gerou ruídos. A justificativa técnica passa pelo equilíbrio defensivo, mas para a torcida e para o mercado, manter o jogador mais caro da América do Sul como opção tática em uma final é um movimento arriscado que expõe tanto o treinador quanto o atleta a uma pressão desproporcional.
Análise tática aprofundada: O dilema de Filipe Luís
Taticamente, o Flamengo de Filipe Luís se estrutura em um 4-2-3-1 que varia para um 3-2-5 na fase de construção. O grande desafio tem sido o encaixe de Lucas Paquetá nesse desenho. Diferente de 2017, quando atuou até como “falso 9” sob o comando de Reinaldo Rueda, o Paquetá atual prefere atuar como um “ritmista”, partindo da base da jogada ou ocupando o “meio-espaço” (half-space) pela esquerda. O problema é que essa zona já é habitada por jogadores como Arrascaeta ou De la Cruz, gerando uma sobreposição de funções que engessa a fluidez ofensiva.
Organização ofensiva
Na construção ofensiva, o Flamengo busca atrair a pressão adversária para lançar bolas verticais ou explorar triangulações pelos lados. Com a entrada de Paquetá, o time ganha em refino técnico e capacidade de drible curto, mas perde em velocidade de transição. Contra o Lanús, viu-se um Paquetá tentando organizar o jogo de trás, mas sem a aproximação necessária dos atacantes, resultando em passes laterais inofensivos e uma posse de bola estéril que não agredia o bloco baixo dos argentinos.
Sistema defensivo e vulnerabilidades
O comportamento defensivo é o ponto de maior ruptura. Filipe Luís exige uma pressão pós-perda imediata. Paquetá, ainda em processo de readaptação à intensidade do futebol sul-americano, falhou justamente nesse quesito no gol de empate do Lanús. Ao não acompanhar a subida do lateral Canale, o meia deixou um buraco na recomposição que foi fatal. A linha defensiva, jogando muito adiantada, fica exposta quando o meio-campo não consegue realizar o “combate” inicial, transformando qualquer erro individual em uma chance clara de gol para o adversário.
Ajustes possíveis e o papel dos volantes
Para que Paquetá renda o esperado, Filipe Luís precisará repensar a dupla de volantes. Atualmente, a carga defensiva sobre os ombros de quem compõe o meio é altíssima. Uma alternativa seria recuar Paquetá definitivamente para a segunda função de volante, permitindo que ele veja o jogo de frente, desde que protegido por um “primeiro homem” de maior pegada e combatividade. Isso liberaria os laterais para atacar com mais segurança, evitando as avenidas deixadas nas costas de Ayrton Lucas ou Wesley.
Bastidores e ambiente político
A temperatura no Ninho do Urubu subiu consideravelmente após o apito final. A diretoria rubro-negra, que investiu pesado na repatriação de Paquetá, sofre cobranças da oposição por conta da gestão do elenco. Há uma percepção de que o “superelenco” está desequilibrado: muitas estrelas para poucas funções operárias. O silêncio de Paquetá após o jogo, evitando a zona mista e as redes sociais, é interpretado internamente como um sinal de abatimento que preocupa o departamento de psicologia do clube.
Relação comissão-diretoria
Filipe Luís ainda goza de prestígio total com Marcos Braz e Bruno Spindel, mas o respaldo não é eterno. A cúpula do futebol entende que o treinador precisa encontrar uma solução rápida para utilizar Paquetá desde o início, sem comprometer a estrutura defensiva. Existe um receio de que o alto investimento se torne um “problema tático” em vez de uma solução, algo que já aconteceu com outros medalhões em gestões passadas.
Pressão interna e externa
A torcida, que recebeu Paquetá com festa no aeroporto, já começa a cobrar uma postura mais incisiva. O rótulo de “contratação mais cara da história” traz consigo a exigência de que o jogador decida partidas sozinho, o que ignora a necessidade de um contexto coletivo favorável. O ambiente para o próximo jogo no Maracanã promete ser de cobrança, e qualquer tropeço contra o Madureira pode tornar a semifinal do Carioca um ambiente hostil.
Comparação com temporadas anteriores
Ao analisar o Flamengo de 2017 e o atual, a maior diferença reside na expectativa. Há nove anos, o vice da Sul-Americana foi visto como parte de um amadurecimento necessário de uma geração que contava com Paquetá e Vinícius Júnior. O clube estava em reconstrução financeira. Hoje, o Flamengo é uma potência econômica que não admite o “quase”.
Em 2017, Paquetá era a solução improvisada para a ausência de centroavantes; em 2026, ele é a estrela contratada para ser a engrenagem principal. O fato de ele ter participado do título Carioca daquele ano como reserva não sacia sua fome de conquistas como protagonista, e o jejum de títulos expressivos nesta sua segunda passagem começa a criar um paralelo incômodo com as decepções de 2017 e 2018.
Impacto no campeonato e projeções
O impacto dessa crise técnica pode ser sentido no início do Brasileirão. Se o Flamengo não resolver o “enigma Paquetá” e a fragilidade defensiva nas próximas semanas, corre o risco de entrar na competição nacional com a confiança abalada e pontos preciosos sendo perdidos para adversários de menor investimento. A projeção estratégica de Filipe Luís para a temporada dependia de um título inicial para dar tranquilidade ao trabalho; sem ele, o treinador terá que gerir crises enquanto tenta implementar conceitos complexos.
O desempenho de Paquetá será o termômetro do Flamengo em 2026. Se ele conseguir se desvencilhar do peso emocional dos vices e encontrar seu lugar no campo, o time tende a ser imparável. Caso contrário, o clube pode ver um investimento recorde se transformar em uma “dieta forçada” de troféus, como o próprio jogador sugeriu ao mencionar o início abaixo do esperado.
Cenário estratégico para os próximos jogos
O calendário oferece uma oportunidade de reabilitação imediata. O confronto contra o Madureira deve servir para Filipe Luís testar uma nova variação tática, possivelmente um 4-3-3 mais clássico, com Paquetá atuando alinhado a dois volantes de maior contenção. A ideia é dar liberdade criativa ao camisa 20, retirando dele a obrigação de perseguições defensivas longas que têm desgastado o atleta fisicamente.
Nas finais do Carioca — contra Fluminense ou Vasco — o Flamengo precisará de uma postura mais pragmática. O histórico recente mostra que o time sofre em clássicos quando tenta impor um ritmo frenético sem ter o controle das transições defensivas. O foco será em ajustar o tempo de bola e a cobertura dos laterais, pontos onde o Lanús explorou as maiores fraquezas rubro-negras.
A “fome de títulos” de Paquetá agora é uma questão de honra. O jogador sabe que sua imagem está atrelada ao sucesso imediato deste projeto. Para o Flamengo, o recomeço passa por entender que o futebol não se ganha apenas com cifras, mas com o equilíbrio entre o brilho das estrelas e a solidez de um sistema que suporte o peso da camisa mais pesada do país.
Conclusão interpretativa
O momento de Lucas Paquetá no Flamengo ultrapassa a análise puramente técnica; trata-se de um desafio de gestão de expectativas e superação psicológica. O meia voltou da Europa com a missão de ser o diferencial competitivo, mas encontrou um cenário onde o coletivo ainda bate cabeça e o passado cobra faturas antigas. O vice da Recopa não é o fim do mundo, mas é um alerta severo: nomes não vencem jogos sem um sistema defensivo confiável. A projeção para o restante da temporada é de evolução, desde que Filipe Luís tenha a coragem de ajustar o time ao redor de suas peças-chave, sem medo de sacrificar dogmas táticos em prol do resultado imediato que a Gávea tanto exige.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: Ge
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