A mística do “bom filho a casa torna” raramente encontra um cenário de tranquilidade imediata no futebol brasileiro, e com Lucas Paquetá no Flamengo, a regra se confirmou. Em apenas 30 dias, o meia experimentou a montanha-russa emocional que define o clube: do choro na recepção aeroportuária à euforia do gol em clássico, culminando na frustração de perder títulos e na busca por uma identidade tática sob o comando de Filipe Luís. A contratação mais cara da história da América do Sul ainda tenta traduzir o investimento recorde em regularidade dentro das quatro linhas.
O contexto de uma temporada de expectativas desproporcionais
O retorno de Paquetá não foi apenas uma movimentação de mercado; foi uma declaração de poder financeiro e institucional do Rubro-Negro. Ao desembarcar no Rio de Janeiro no final de janeiro, o atleta trouxe consigo a responsabilidade de ser o diferencial técnico em um elenco que já transborda talento. O impacto inicial foi magnético, com a torcida abraçando o ídolo que admitiu: “talvez eu precisasse mais do Flamengo do que ele de mim”. Essa frase selou um pacto de entrega que, no entanto, esbarra no calendário asfixiante e na falta de pré-temporada com o grupo.
Neste primeiro mês, a minutagem foi alta. Foram oito jogos que serviram como um laboratório em tempo real para a comissão técnica. O Flamengo de 2026, pressionado por resultados imediatos em competições de tiro curto como a Supercopa e a Recopa, não ofereceu ao meia o tempo de maturação ideal. Paquetá foi jogado aos leões em Brasília e na Argentina, evidenciando que, embora o talento seja nato, o ritmo de jogo do futebol brasileiro exige uma adaptação física que o futebol europeu, por vezes, mascara em termos de intensidade de choque.
O balanço deste período revela um jogador tecnicamente acima da média, mas taticamente nômade. Ele transitou entre a armação clássica, a ponta e a função de segundo volante, onde encontrou seus melhores momentos estatísticos. Contudo, a oscilação em jogos grandes — como a falha na finalização contra o Corinthians e a atuação opaca contra o Lanús — mostra que a engrenagem rubro-negra ainda sofre para acomodar tantas peças de elite sem perder a sustentação defensiva.
O fator recente: a busca pelo “ritmo competitivo”
O episódio na Supercopa contra o Corinthians no Mané Garrincha foi o primeiro grande choque de realidade. A chance perdida nos acréscimos, que poderia ter mudado o destino da taça, deixou cicatrizes emocionais visíveis no atleta. Para um jogador de Seleção Brasileira e Premier League, aquele erro foi interpretado como uma desconexão momentânea com a urgência do futebol nacional, onde um lance define meses de planejamento político e esportivo.
Entretanto, a resposta veio no Campeonato Carioca. A goleada sobre o Sampaio Corrêa e a vitória sobre o Botafogo mostraram um Paquetá mais integrado. No clássico, o gol marcado e a celebração característica serviram para resgatar a confiança do torcedor. O problema é que essa evolução foi interrompida pela Recopa Sul-Americana, onde a queda de desempenho coletivo arrastou o individual, levantando questionamentos sobre sua capacidade de suportar a marcação pressão exercida por equipes argentinas bem estruturadas.
Análise tática aprofundada: o xadrez de Filipe Luís
Taticamente, o Flamengo de Filipe Luís tenta se consolidar em um 4-2-3-1 que se transmuta em um 4-3-3 agressivo. A entrada de Paquetá nesse sistema gerou um “problema positivo”, mas complexo. O treinador tem priorizado a posse de bola e a pressão alta, características que Paquetá domina, mas a execução tem sido intermitente. A grande questão reside na zona de atuação: onde o meia é mais produtivo para o coletivo?
Organização ofensiva e construção
Na construção ofensiva, Paquetá mostrou-se mais confortável partindo da base da jogada. Atuando como um “segundo volante moderno”, ele oferece uma saída de bola refinada que poucos no Brasil possuem. Sua capacidade de girar sobre a marcação e quebrar linhas com passes verticais foi crucial na goleada de 7 a 1. Quando o jogo flui, ele se torna o motor que liga a defesa ao ataque com uma transição limpa.
No entanto, Filipe Luís já manifestou publicamente o desejo de ter Paquetá mais próximo da área adversária. A ideia é aproveitar sua capacidade de infiltração e finalização média, transformando-o em um “camisa 10” de chegada. O conflito reside no fato de que, ao jogar mais adiantado, Paquetá recebe de costas para a marcação e sofre com o combate físico mais ríspido dos volantes adversários, diminuindo seu tempo de raciocínio.
Sistema defensivo e recomposição
O comportamento defensivo de Paquetá é elogiável em termos de entrega, mas perigoso em termos de posicionamento. Ao atuar recuado, ele muitas vezes sobrecarrega o primeiro volante (seja Pulgar ou Allan) ao sair para caçar a bola em zonas altas. Na derrota para o Lanús, isso ficou evidente: o buraco deixado às costas do meia foi explorado incessantemente, evidenciando que a proteção da zaga fica vulnerável quando ele não mantém a disciplina posicional.
As transições defensivas do Flamengo ainda são o ponto fraco. Com Paquetá e outros jogadores de característica ofensiva em campo, o time tende a ficar “longo”, facilitando o contra-ataque adversário. O desafio de Filipe Luís é calibrar o “perde-pressiona” para que Paquetá não precise correr 40 metros para trás toda vez que o time perde a posse no terço final.
Papel dos volantes e ajustes possíveis
A parceria ideal de Paquetá no meio-campo ainda é um enigma. Com um volante de contenção fixa, ele tem liberdade para criar, mas o Flamengo perde em intensidade de marcação no setor. Uma alternativa seria o uso de um tripé de meio-campo mais físico, permitindo que ele foque exclusivamente na articulação. Os ajustes passam pela melhora do entrosamento com os laterais, que precisam entender o tempo de passagem quando o meia corta para o centro para organizar o jogo.
Bastidores e o ambiente político da SAF e gestão
Nos bastidores da Gávea, a contratação de Paquetá é vista como o triunfo máximo da atual gestão, especialmente em um ano onde as movimentações para a implementação definitiva de um modelo de gestão mais empresarial ganham corpo. Existe uma pressão interna silenciosa para que o investimento se pague não apenas em campo, mas em marketing e valorização da marca Flamengo no exterior.
Relação entre comissão técnica e diretoria
Filipe Luís goza de total prestígio com a diretoria, mas sabe que a gestão de estrelas do calibre de Paquetá exige diplomacia. A decisão de barrar o meia na partida de volta contra o Lanús foi um movimento ousado que demonstrou autoridade técnica, mas que também gerou burburinhos nos corredores sobre como o jogador lidaria com a reserva. A diretoria, por sua vez, mantém o discurso de respaldo total ao treinador, entendendo que o processo de adaptação é natural.
Pressão externa e a cobrança da torcida
A torcida do Flamengo, embora apaixonada, é imediatista. O rótulo de “salvador da pátria” foi colado em Paquetá no momento da assinatura do contrato. Qualquer oscilação é amplificada pelas redes sociais e pela mídia esportiva. A pressão externa aumenta a cada tropeço em finais, e a sombra de ídolos recentes que conquistaram tudo no clube paira sobre o meia, que precisa de um título de expressão para consolidar seu retorno como um sucesso absoluto.
Comparação com temporadas anteriores e evolução do atleta
Comparando com sua primeira passagem (2016-2018), Paquetá é hoje um jogador muito mais completo e taticamente consciente. Se antes ele era o “garoto do drible” e da energia inesgotável, hoje ele é um organizador que entende os espaços do campo. No entanto, a intensidade do futebol brasileiro em 2026 é superior àquela de sua saída, com defesas muito mais fechadas e esquemas táticos mais sofisticados.
Sua evolução na Europa o transformou em um jogador versátil, mas essa versatilidade às vezes joga contra ele no Brasil, onde a especialização em uma função tende a render mais frutos imediatos. Em relação à temporada passada no West Ham, nota-se uma queda natural de ritmo físico, comum a quem troca o calendário europeu pelo sul-americano sem uma pausa adequada para reequilíbrio fisiológico.
Impacto no campeonato e projeções estratégicas
Para o restante do Campeonato Brasileiro e o início das fases agudas da Libertadores, a presença de Paquetá muda o patamar do Flamengo. Ele atrai a marcação, liberando espaço para nomes como Pedro e Arrascaeta. Estrategicamente, o Flamengo se torna um time muito mais imprevisível com ele em campo, capaz de mudar o estilo de jogo de uma posse paciente para uma verticalidade súbita em poucos segundos.
As projeções indicam que, com uma sequência maior de jogos na mesma posição, Paquetá deve atingir seu ápice físico e técnico em meados de abril. O desafio será manter a saúde física diante das viagens exaustivas que o calendário nacional impõe. Se Filipe Luís conseguir estabilizar o sistema defensivo, o meia terá a liberdade necessária para ser o arco e a flecha do ataque rubro-negro.
Cenário estratégico para os próximos confrontos
Os próximos compromissos do Flamengo exigirão uma definição clara sobre a utilização de Paquetá. Em jogos fora de casa pela Libertadores, o perfil combativo do meia será essencial. Já no Maracanã, espera-se que ele assuma a batuta do jogo, ditando o ritmo e aumentando sua média de finalizações por partida, que ainda está abaixo do esperado para um jogador de sua qualidade.
O ajuste tático passará, necessariamente, pela compactação entre as linhas. Paquetá não pode ser um “solista” em um time que precisa de coro. A integração com o setor ofensivo precisa ser refinada nos treinamentos, focando em jogadas de ultrapassagem e tabelas curtas na entrada da área, onde ele costuma ser letal.
Conclusão: a interpretação do momento
O primeiro mês de Lucas Paquetá no Flamengo não foi um fracasso, nem um sucesso retumbante; foi um retrato fiel da complexidade do nosso futebol. O talento do meia é indiscutível e sua importância para o elenco é vital, mas o futebol não perdoa a falta de tempo. O dilema entre ser um volante construtor ou um meia finalizador é o que definirá o sucesso de sua trajetória nesta volta.
A projeção para o futuro é otimista, desde que haja paciência para a maturação do sistema tático de Filipe Luís. Paquetá tem os recursos para ser o melhor jogador do continente, mas precisa que o coletivo o sustente para que sua individualidade brilhe nos momentos de decisão. O Flamengo comprou um craque; agora, precisa aprender a jogar com ele.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: Ge
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